Otto
Nunca tinha visto esse vídeo, mas sabe a impressão de feeling like home? São Paulo, protagonizada por Otto, por ruas que tanto perambulamos, entre as estátuas vivas no Viaduto do Chá e as amigas dos subterrâneos da Rua Augusta. Pra você ser minha mulher é a música que ecoa nos domingos de ressaca dos amores perdidos na Augusta. “Os sonhos que eu componho em versos pra você dormir”. Lindo, né? Otto é foda.
Home, sweet office
Concordo que há um certo charme na vida de frila, com a impressão de liberdade, maleabilidade de agenda, possibilidade de acordar às 11h da manhã e passar a noite escrevendo.
Para jornalistas e escritores, a ideia é atraente: acordar a hora que quiser, não enfrentar o trânsito, cruzar apenas a fronteira entre a cama e o notebook (às vezes ainda de camisola), escrever, ler o jornal enquanto toma (canecas de) café em seu tempo, intercalar o jornal sério com uma revista besta sem ter de lidar com olhares acusadores, passar bons minutos garimpando o armário antes de sair de casa, andar para espairecer e encontrar inspiração nas ruas, enrolar o editor quando deadlines da vida cotiana são mais importantes, parar para pensar, ir ao cinema à tarde em plena quinta-feira na Augusta, parar para repensar o texto enquanto observa vitrines (e não outros jornalistas, uns um tanto abutres, esperando e espiando impacientemente o texto), andar pela Paulista só porque é segunda, escrever e reescrever um texto na versão a, b, c até encontrar a z e apertar o libertador enter e, pronto, sent. Não ter uma rotina. E não enfrentar o trânsito na volta para casa.
É verdade que a vida de frila tem dessas benesses. Mas é preciso disciplina para poder equilibrar vida pessoal e profissional nesse estilo tão ambivalente. Às vezes, a gente nem nota, mas na real, só está trabalhando. Apesar de poder fazer o que bem quer, só está pensando no maldito deadline. Outras vezes, a gente só vive, e esquece que teria que estar trabalhando -
e só se lembra do deadline na véspera. E tudo se complica quando você acumula vários frilas – e mestrado e mudança de apto e claustrofobia de sua casa reunir quarto+sala+escritório no mesmo espaço, como é o caso do meu apto.
Mas confesso que estou um pouco cansada dessa vida de frila. O retorno financeiro compensa – se tiver disciplina para arcar com diversos compromissos ao mesmo tempo. Mas às vezes dá uma saudade do tempo em que se tinha uma razão para acordar cedo – ok, 8h da manhã para mim é cedo -, caminhar até a Paulista, tomar um ônibus e encerrar o dia sabe-se lá quando, porque quando não se tem uma razão para acordar, o tempo fica esquisito, descompassado, flutuante. O engraçado é que muitas vezes nós queremos tanto uma vida sem rotina e esquecemos que a rotina pode ser um bom marcapasso.
Alice
Alice no país das maravilhas era um dos filmes by Walt Disney preferidos na minha infância. Eu ficava apavorada com o gato maldito de sorriso diabólico na lua – mas quem não tinha medo? O filme é tão impressionante que, anos depois, quando li as alucinações impressas de Lewis Carrol, não me foi tão marcante. Delirar com as imagens era mais divertido, e mais ‘real’, do que as páginas.
A história fascinante é como um sonho psicodélico, sonhado por Lewis Carroll (e a lenda urbana de que ele teria escrito Alice com um empurrãozinho de LSD), de uma menininha que, por curiosidade, se envereda em uma perseguição do coelho branco na trilha fantástica de chapeleiros cambaleantes de chá (de cogumelo, será?), rainha de copas soberana entre cartas de todos os naipes, golinhos mágicos que fazem encolher e biscoitos esquisitos que fazem crescer, um par de psycho twins e, claro, um gato encantador de olhos amarelados, aterrorizantes, sinistros.
É uma de minhas histórias preferidas. E como não se entregar a essa narrativa, tão lúdica, tão insana, tão… louca? Fato é que Alice nos desperta para uma liberdade incrível, para imaginar mundos de outro mundo, para criar imagens de fantasia, infatis e maliciosas, inocentes e perigosas. É uma menina curiosa que se aventura atrás de um puto de um coelho. Por que é que há tantas releituras contemporâneas inspiradas nos delírios de Alice?
Gwen revisita Alice brilhantemente, com o melhor que o pop pode oferecer. Enquanto Aerosmith galanteia sua Alice, com o rock.
Mas a principal, e por mim mais esperada, leitura desse clássico fica por conta de Tim Burton, com seu autoral Alice in Wonderland que será lançado em abril (abril?). Que é que se pode esperar de uma Alice feita pelo diretor de Sleepy Hollow, Big Fish, Corpse Bride, Sweeney Todd, The Chocolate Factory, entre tantos outros filmes sinistros e adoráveis? É esperar para ver :)
Em tempo: Depois de ser o barbeiro psycho Sweeney Todd, o Willy Wonka da fantástica fábrica de chocolates e o herói da lenda do cavaleiro, Johnny Depp marca presença mais uma vez na obra de Tim Burton como o chapeleiro non sense incandescente, como mostra o trailer. E felizmente Helena Bonham Carter, esposa de Tim Burton, também estará em Alice, encarnando a Rainha. Depois de Fight Club, ela emendou vários filmes com um quê sombrio e fantasioso, como Big Fish, The Chocolate Factory, Sweeney Todd etc. Espero que a safra Burton+Depp+Carter continue assim.
I’m there
[...] T. S. Eliot escreveu certa vez um poema no qual as pessoas caminhavam de um lado para o outro, e todo mundo que andava na direção contrária parecia estar fugindo. Foi como pareceu naquela noite, e como pareceria muitas vezes durante um certo tempo. Em Além do bem e do mal, Nietzsche fala sobre sentir-se velho no começo da vida… Eu também me sentia assim.
Bob Dylan. Crônicas Volume I, 2005, p. 85.
Se Elvis liberara o corpo, Dylan libertou a mente. Dylan não inventou o rock – ele apenas lhe deu um cérebro. Quando os Beatles e os Stones viraram doidos de pedra – with a little help from their friend Bob, aliás -, Dylan foi criar fiilhos e galinhas ao lado do celeiro, em Woodstock. Enquanto John e Paul estavam querendo pegar na mão de uma garota – I wanna hold your hand -, Dylan já estava deixando o quarto dela, levando os cobertores, deixando-a só com suas pílulas, sua anfetamina e sua dor, como se ela já fosse mulher feita. You’re a big girl now, baby blue.
Posfácio de Eduardo Bueno.
Diferenças S/A, Tolerância SP
Daniel e André andam tranquilamente de mãos entrelaçadas, imersos na sociedade anônima de 1,5 milhão de passantes diários da Avenida Paulista. Mas o casal recebe o olhar oblíquo de um senhor grisalho que, com ar de desapontado, balança a cabeça. “E daí? É São Paulo. Hello! É o século 21”, diz André. Ao mesmo tempo em que desliza com a naturalidade dos novos tempos, a frase ainda arranha os ouvidos mais conservadores, pondo em xeque as transformações assistidas pela sociedade paulistana.
Um novo mapa paulistano está sendo traçado para lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTT) a partir de 2010. Estar nesta cartografia, no entanto, não é lá motivo de orgulho. A Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual está construindo o Mapa da Homofobia, baseado nas estatísticas de discriminação arquivadas no Centro de Combate à Homofobia, que neste ano atendeu a 214 casos até outubro. A nova bússola norteará políticas públicas “tanto na questão do policiamento quanto na conscientização da sociedade frente às diferenças”, diz o coordenador Gustavo Menezes. Enquanto o quadro não é delineado, é possível observar uma cidade de matizes modernos em contraste com rasgantes traços homofóbicos.
Para Rogério de Oliveira, diretor da ONG Casarão Brasil, o “epicentro gay friendly” se destaca entre as brechas que a cidade oferece para a diversidade sexual. Os vértices de Avenida Paulista, Rua Augusta e Frei Caneca demarcam um espaço privilegiado para a aceitação, onde casais no estilo de Daniel e André, Ana e Carolina, e tantos outros se sentem mais à vontade. “Não é um gueto, é só um espaço mais aberto”, diz. Entre os habitués, o epicentro recebe variadas tribos, como roqueiros, fashionistas e cinéfilos. Ironia urbana, pois o circuito também é um dos pontos de encontro de neonazistas skinheads e suas eventuais agressões aos LGBTTs – prova brutal de que há quem engatinhe no respeito às diferenças.
Um dos primeiros passos nessa trilha foi o boom da aids em 1985, pois os gays eram apontados como o principal alvo do vírus HIV. Entre 1980 e 2000, São Paulo teve 35.923 diagnósticos soropositivos – entre eles, 9.377 eram homossexuais, isto é, 26,1%, segundo o Programa de DST/AIDS. “Infelizmente, era conhecida como a ‘peste gay’”, lembra Julian Rodrigues, da ONG Corsa. “Mas o lado positivo é que a aids tirou milhares de pessoas do armário” , diz, sobre a articulação do movimento a partir da epidemia, com as letras GLS, GLBT e a mais atual LGBTT a costurar a bandeira arco-íris da “diversidade sexual”.
A Parada Gay, estreante em 1997 com 2 mil pessoas, é um marco do movimento. Neste ano, a 13ª Parada do Orgulho Gay reuniu mais de 3 milhões de pessoas na Avenida Paulista, segundo a SP Turis, fazendo jus ao título de “maior parada LGBTT do mundo”. Entre carnaval fora de época e manifestação política, o evento “é um salto na história”, nas palavras do coordenador Manoel Zanini, por dar mais visibilidade às bandeiras coloridas na luta por direitos civis. Apesar dos holofotes em outubro, mês oficial do “orgulho gay”, o cotidiano de uma cidade do quilate paulistano “torna tudo mais difuso, onde as pessoas podem experimentar o anonimato para descobrir seus desejos”, diz o advogado Dimitri Sales, da Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual. Há a capital civilizada, vanguardista e diversa, “onde você pode ser o que quiser”, diz Julian, mas uma mudança de perspectiva traz à tona uma São Paulo “tradicional e caretinha”: “Não quero ser Poliana. Seria bom se o mundo fosse cor-de-rosa, mas ainda há intolerância, sim.”
“Não é legal ser preconceituoso hoje, mas à boca pequena, a cidade continua politicamente incorreta”, diz Alexandre Saadeh, especialista em sexualidade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP). Numa sociedade controversa em que as diferenças conquistaram visibilidade no anonimato, e a tolerância e o respeito tomaram contornos políticos, a liberdade de “ser diferente” ainda caminha tímida frente aos preconceitos, velados e assumidos. Talvez o quadro nebuloso ainda precise de pinceladas de arco-íris.
Rehab
Depois de 15 dias praticamente desplugada, estou de volta. As férias no campo, aliás, no Mato, renderam bons dias de rehab. Sem Sampa, sem Paulista, sem Augusta, sem jornal, sem trânsito, sem twitter, sem o céu paulistano cinzento que tanto adoro, mas com o ar puro do interior paulista e uma internet a manivela de 53,6 kpbs, tive tempo. Tempo para caminhar/correr 7 km por dia respirando ar puro e transpirando as toxinas acumuladas durante os demais 300 e tantos dias de 2009, para passear com minhas 3 adoráveis dálmatas, para passar mais de 10 dias consecutivos absolutamente sóbria e aproveitar minhas 7, 9 e até 11 horas de sono, para comer sushi feito por mamis e verduras frescas da horta de papis, para levar os priminhos para brincar no parque, para comer fruta colhida do pé, para percorrer a cidade em que todo o mundo sabe quem é todo o mundo, para sair à noite e voltar às 5 da matina e desembolsar meros R$ 7. Ainda que por poucos dias, o tóxico cinza deu lugar ao verde, ao azul, ao terra. E é nesse fim de mundo que me lembrei que esse foi meu mundo primeiro.

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