Na Berlinda

Bem p*@&!#

Publicado em cotidiano por Juliana Sayuri em 30/11/2009

Este é curtinho, por isso está aí na íntegra. “Nosso amor bem puto”. De Xico Sá, claro. Até que me lembra esse conto, também dele, na Época.

Nem fomos ao mar para ver o nosso amor morrer na praia. Nosso amor morreu engarrafado, na correria do povo para deixar São Paulo, babilônicos corações de fumaça a 10 km por hora. Nosso amor largou o automóvel e saiu caminhando, melancólico, entre motoboys e miragens, crepúsculo cubatanesco a escorrer do nariz. Stop, parou o nosso amor ou é apenas um sinal fechado?
Minutos antes, nosso amor foi visto saindo do Paraíso e saltando na Consolação, a linha do último metrô de todos os amores expressos. Aí nosso amor, puto da vida, bebeu cachaça, cheirou cola, acendeu o cachimbo na Cracolândia, perdeu os óculos, as lentes de contato, pegou um papelote de quinta na Augusta, gastou a pele, fez besteiras e vomitou bem muito o foie-gras dos nossos próprios fígados. Nosso amor não conseguiu dormir direito nesse dia, zumbizou geral o malaco, e não foi apenas o barulho da construção mais demorada do que a catedral de Colônia, a Transamazônica ou o castelo de Kafka.
Nosso amor só pode estar tirando onda da nossa cara, é o tipo do amor que sabe rir da nossa desgraça, um amor de rapariga da última luz vermelha do fim do mundo, um amor da porra, que não respeita as leis do cosmo, nosso amor é uma ficção barata, café puro, pão na chapa, nosso amor nem esfriou ainda o cadáver, acabou no auge, como a carreira de Pelé, como os Beatles, nosso amor era sábio. E como os amores reencarnam, muito cuidado, senhoras e senhores, nosso amor pode estar rondando ai a sua área. Prendam o criminoso, onde está a polícia que não vê uma coisa dessas, tio Nelson?

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Estilo retrô

Publicado em cotidiano por Juliana Sayuri em 29/11/2009

2009 passou. 32 dias antes de o ano terminar, nem olho mais o calendário, pois já dá para contar nos dedos os compromissos ainda pendentes. Talvez por isso já sinta um gostinho de retrospectiva do que passou neste 2000inove – uma tiradinha previsível e clichê, mas legal.
E o que passou?

* 9 carimbos sul-americanos no passaporte neste ano: Uruguai, Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela;
* A posse de Barack Obama, enquanto estava em Santiago do Chile. Aliás, esta é a foto mais impressionante ever desse momento histórico de hope;
* As cambalhotas do dólar, entre R$ 2,31 em janeiro, R$ 2,04 em junho e R$ 1,72 em novembro, nas ondas instáveis de marola, marolinha e tsunami da crise financeira mundial;
* A vitória de meu irmão Marcelo, agora estudante de Medicina da UFTM;
* Vi as três casas de Pablo Neruda no Chile; pus os pés, o corpo e a alma no Oceano Pacífico pela primeira vez, em Viña del Mar;
* Experimentei os prazeres de pisco souer, folha de coca, carne de lhama, entre outras iguarias latinoamericanas;
* Fiz amigos da Áustria, Austrália, Chile, Colômbia, Israel, Irlanda, Inglaterra, Noruega e por aí vai;
* O CQC veio para ficar e emplaca o quadro Top 5.
* Os ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa perderam as estribeiras no STF: “Vossa Excelência está destruindo a justiça desse País e vem dar lição de moral em mim?”. Joaquim Barbosa rules!
* Vi o show da banda querida da época em que era uma adolescente rebelde, em março. Ainda bem, porque depois uma treta fraternal foi o ponto final de Oasis;
* Ronaldo voltou ao Brasil, entrou no Corinthians e marcou no jogo de estreia contra o Palmeiras;
* Todos tivemos de aprender a escrever ideia sem acento agudo, de acordo com a nova ortografia;
* Fiquei abismada com o acidente da Air France;
* Fiquei indignada com a canalhice da Folha, várias vezes este ano;
* Vi o show de um Marcelo Camelo incrivelmente simpático, encurralada na Virada Cultural;
* Perdi vários shows este ano, enforcada financeiramente. Nem direi quais foram para não lamentar mais uma vez;
* Slumdog Millionaire foi o melhor filme do Oscar 2009;
* A aventura do Tren de la Muerte, entre Puerto Quijaro e Santa Cruz de la Sierra. Única vez na vida, nunca mais;
* A aventura boliviana mais linda: cruzar o Lago Tititaca, até Isla del Sol;
* Fiz a inka trail, de Cuzco a Machu Pichu, 4 dias e 3 noites absolutamente incríveis;
* Saí aos prantos de Lima. Daria tudo para poder ficar mais dias em Miraflores;
* Vi os quadros pop art de Andy Warhol no museu de Bogotá, inclusive os clássicos de Marilyn Monroe;
* Encontrei Yuri Neira e sua história fantástica, que se tornou reportagem na Fórum;
* Um protesto contra violência militar em Bogotá, na Colômbia;
* Quando soube, por Bruno Espinoza, do acidente de Felipe Massa, pensei que era piada;
* Estive em uma pontinha do Mar do Caribe, em Cartagena das Índias;
* Li e reli uma reportagem fantástica sobre o arquivo Curió;
* Li Cien años de soledad, oficial, da Academia Real Española, e Travesuras de la niña mala, absurdamente mais delicioso em espanhol;
*A senadora Marina Silva saiu do PT e se filiou ao PV, deu um baile na sabatina do Roda Viva e despontou para a maratona presidencial;
* Li três capítulos de O Capital – aliás, duvido, truco, desafio que os estudantezinhos pseudo-revolucionários tenham lido sequer uma página original, sem interpretações secundárias, de Karl Marx. Se tivessem lido, não se diriam marxistas assim, deliberadamente.
* Perdi o medo de voar;
* O Brasil se tornou credor do FMI;
* Ouvi incontáveis vezes Thriller enquanto mochilava pela América, todos comovidos pela morte de Michael Jackson;
* Fiz jornalismo. Livre, em dois sentidos: freelancer e livre para rechear mais de 15 mil caracteres. Ok, as matérias foram editadas e enxugadas, mas o essencial taí nas revistas [os links na coluna ao lado];
* Tive artigos teóricos publicados :) inclusive em revistas internacionais, como a francesa Revue Interdisciplinaire de Travaux sur les Amériques do Institut des Hautes Etudes de l’Amérique Latine e a peruana Diálogos de la Comunicación da Federación Latinoamericana de Facultades de Comunicación Social [os links na coluna teóricas ao lado];
* A novela dos “atos secretos” do Senado se transformar em uma das mais importantes séries de reportagem do ano;
* O senador Fernando Collor ainda pensa que é respeitável;
* Estudei Comunicação e Movimentos Sociais na PUC-SP e estou vendo terminar meu tempo de Mestrado na FFLCH na USP – em breve, serei mestre, incroyable. Aí, doutorado – mas isso é 2010.
* O absurdo de, em tempos democrátivos, o Estado reviver censura;
* Passei no curso de jornalismo de O Estado de S. Paulo;
* Fiz amigos de Minas, Santa Catarina, Recife, Bahia e por aí vai;
* Entrevistei Bernardo Kucinski, Franscico Alambert, Luis Nassif, Mirian Goldenberg, Antonio Espinosa, Cristovam Buarque, Romeu Tuma, entre outros;
* São Paulo teve de se adaptar à lei antifumo;
* Vi o cultivo de fumo de perto, em Santa Cruz do Sul;
* Fiz um tour pela redação do Estado: Caderno2, Esportes, Economia, Internacional e Vida&. Mas nada que supere o Aliás.
* Tive a oportunidade única de me sentar na cadeira de Luiz Carlos Merten e de ficar no Aliás ao lado de Monica Manir – aliás, já sei quem quero ser quando crescer;
* Tive a chance de entrevistar o senador adorável – ironia, people – Romeu Tuma, assim como trocar palavras com o “jornalista” Antonio Aggio;
* Aloizio Mercadante renuncia à liderança do PT no Twitter, mas volta atrás;
* Meus fios castanhos passaram a levemente ruivos, loiros, loiros acinzentados e preto azulado;
* Eduardo Suplicy mostra cartão vermelho no Senado, pedindo renúncia de José Sarney – tá, mas cartão vermelho depois do fim do jogo não vale mais, né senador?
* Revi o querido amigo Luiz Augusto em Porto Velho, Rondônia, e tive a oportunidade de navegar no Rio Madeira;
* Vi o Palmeiras perder o título do Brasileirão 2009;
* O Rio foi escolhido como sede das Olimpíadas de 2016 e o Brasil será sede da Copa de 2014;
* Vi o passo a passo da reportagem de Christian Cruz no Aliás sobre o corpo descarado da violência do Rio de Janeiro;
* Assisti a vários filmes, mas Inglorious Bastards definitivamente me marcou;
* Parecia romance policial e jornalismo de aventura, mas o Enem vazou;
* Guerrinha entre Globo e Record – se pelo menos fosse uma guerrilha com direito a tiroteio midiático decente;
* Tive aulas de economia com Marcos Fernandes Gonçalves e de política com Claudio Couto, os dois da FGV, e de filosofia com Luiz Felipe Pondé da PUC-SP;
* Juanita Castro, irmã de Fidel e Raúl, revelou que participou da CIA;
* Tá, confesso, sou apaixonada por Fernando Henrique Cardoso;
* Dormi, enquanto 18 Estados do Brasil “viam”, ou viviam, o blecaute;
* Aderi ao Twitter. e desisti do Orkut;
* Vi na marra que Colcci, Fórum e M. Officer não cabem mais no meu orçamento proletário :p E descobri achados nos brechós, na feirinha da Benedito Calixto, na C&A;
* Amei, desamei, amei de novo, desamei e, pasmem, amo de novo;
* Lamentei meus 23 anos, com a amarga tristeza de que o tempo definitivamente passa. E nunca mais terei meus 17 anos de volta.

No fim, não importa o quão afiada está sua memória, sempre se esquece algo – na política, o clã Sarney foi o destaque; na política internacional, Honduras e Irã me despertaram muita atenção; na economia, a crise e a agenda pós-crise; mas tenho absoluta certeza de que jamais isso condensaria tudo o que foi 2009: são apenas headlines que conquistaram minha atenção e, mais importante, minha memória, que não é um HD, logo é absolutamente aceitável que seja seletiva.  Nem preciso dizer que esta é a minha retrospectiva, né? Certamente revistinhas super confiáveis vão triar seus próprios destaques de 2009.
Mas, no estilo retrô, às vezes só pinceladas de passado já fazem um quadro minimamente coerente. Minha camiseta multimídia 2009 poderia ficar coerente assim com a foto de Barack Obama no estilo de contraste colorido de Marilyn Monroe, com uma favela indiana ao fundo e um cristo redentor decolando como na The Economist e Is this it dos Strokes, o melhor álbum da década, como trilha sonora. Ah, sim, a camiseta leva a etiqueta da C&A, porque a ideia de moda democrática é a tendência dos novos tempos.
O que dá para notar é que quase tudo está midiatizado, linkado, hiperconectado. Afinal, por que é que há tantos links neste post? Porque talvez esta seja a maior guinada, não só de 2009, mas dos últimos tempos. Antes da paranoia intelectualóide, face the facts, é só isso: a mídia invadiu todas as editorias do jornal, todos os factóides que são travestis prematuros da história, todas as esferas da vida cotidiana.

Human

Publicado em cotidiano por Juliana Sayuri em 27/11/2009

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Eu sei que não sei

Publicado em cotidiano por Juliana Sayuri em 20/11/2009

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Por acaso

Publicado em cotidiano, repórter por Juliana Sayuri em 19/11/2009

Há acasos engraçados nessa vida.
Entre 2006 e 2007, ainda estudante de jornalismo e editora do Contexto – jornal-laboratório da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho -, fiz uma reportagem sobre HIV/Aids. um par de histórias entrelaçadas e uma protagonista: Beatriz Pacheco. 
O texto foi publicado nas páginas coloridas do modesto Contexto, com todo o amadorismo de um laboratório universitário.
Nos últimos dias, fazendo uma pesquisa no arquivo do Estado sobre HIV/Aids, sexualidade, diversidade sexual e outras pautas, dei de encontro com uma reportagem/perfil no Aliás de fins de 2008, por Ivan Marsiglia, jornalista que admiro imensamente. De quem era o perfil? Beatriz Pacheco.
Engraçado, né? Uma pontinha de orgulho por ter compartilhado, mesmo sem saber, uma história com ele. Em tempo: não tenho nenhuma ilusão, a reportagem de Ivan dá de dez a zero na minha. Mas eu prefiro meu lide.

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Entre piratas e corsários

Publicado em cotidiano, repórter por Juliana Sayuri em 19/11/2009

Já que a pauta do post é pirataria e propriedade intelectual, fiz um crtl c + crtl v do prólogo de uma discussão, citando a fonte, claro:

A discussão sobre propriedade intelectual é das mais importantes para a definição dos rumos da sociedade contemporânea. Estão em jogo o acesso universal ao conhecimento e o direito do autor viver de sua obra, consagrados pela modernidade. Configurado de maneira a atender aos interesses dos grandes conglomerados empresariais o aparato legal vigente é anacrônico e impede a construção de uma sociedade baseada na livre expressão e circulação de conteúdos. As novas tecnologias da informação implodem esse sistema. Mais no post de Leonardo Brant, no Cultura e Mercado.

Por outro lado, o Estado já marcou sua posição ao assinar a Declaração de Hamburgo. Outros, como o Le Monde Diplomatique, estão em defesa do Creative Commons. Mas, assim: para mim, é claro que é sempre imprescindível citar a fonte, sobretudo de textos jornalísticos; porém, é difícil pensar um ciberespaço - especialmente em tempos em que os mares são poluídos com conteúdos de fontes super confiáveis como Wikipedia e afins, desculpe, mas isso é lixo eletrônico -, em que se controle quem realmente cita a fonte direitinho e quem faz um crtl c + crtl v e se apropria do texto de outrem. Mas ficará mais difícil navegar se se instaurar um controle na web? E será essa medida capaz de provocar o naufrágio dos piratas?