Sua trip
“Um corpo de homem, se é musculoso, não está jamais verdadeiramente nu”.
Jean-Jacques Courtine
Trip para mulher estreou no mercado editorial brasileiro em maio de 2001. Nesse ano, às vésperas do 15º aniversário da revista masculina Trip, a Editora TRIP realizou uma pesquisa constatando que cerca de 25% do público leitor era composto por mulheres. Lima (Tpm, maio de 2001, ano 1, n.°1, p. 20) pondera que, apoiando-se nessa estatística, tal parcela de mulheres busca nas páginas de Trip o que não encontraria em demais revistas femininas publicadas no Brasil.
Lima acumula os postos de sócio-fundador da Editora TRIP, idealizador e editor das revistas. Ele justifica a aposta em Trip para mulher como um contraponto aos magazines destinados à mulher no País e isso se confirma em:
“É claro que há exceções, mas, em geral, as revistas femininas nem mesmo se dignam a velar aquilo que pensam da mulher brasileira: uma pessoa simplória, de horizontes estreitos, com pouquíssimo potencial, de espiritualidade rasa, cultura próxima do zero, tipo físico medíocre, que se agarra a regimes, peelings, drenagens linfáticas, plásticas e ginásticas, para – com a ajuda de um fragilíssimo Cascolac cultural que consiga absorver de suas páginas – lutar com todas as forças a fim de laçar um pobre diabo que a carregue” (Tpm, maio de 2001, ano 1, n.° 1, p. 20).
Ainda de acordo com o editor da revista apelidada como “Tpm”, o público-alvo seria uma mulher:
“[...] Ainda mais forte, sensível e independente, como aliás costumam ser as mulheres [...]. Mulheres que querem construir, aprender, se divertir, mudar o planeta, vivenciar opções bem diferentes das previstas nos planos traçados sem sua participação. Prontas para viagens de todos os tipos, sem culpa com relação ao consumo, ao sexo, abertas à informação nova, aos esportes, às outras culturas e formas de ver o mundo. E, é claro, com a eterna vocação de espalhar o amor pelo mundo. É para as mulheres que dedicamos esta primeira e as próximas centenas de edições de Tpm”.
“Não existe coisa mais bonita neste mundo que um homem”.
Antonia Pellegrino
No campo de “tensão sócio-cultural” associado ao pós-feminismo, questionou-se o lugar da mulher como sujeito de uma sexualidade e o homem como objeto de desejo.
No caso de Tpm, a mulher como sujeito ativo está em vias de se afirmar. A mulher imaginada por Tpm ainda não está no ápice de “atitude” em apreciar o corpo-objeto masculino, sem que a ele não se aditive uma mística de príncipe. Caso diametralmente oposto é o de Trip, da líder Playboy e de Vip e “o prazer de ser homem”.
Nestes, o corpo nu é início e fim, por si só, do objeto de desejo. Em Tpm, no entanto, não. A nudez parcial do corpo tem seus hiatos supridos por representações masculinas líricas. Marcello Antony, “o homem mais desejado do Brasil”, personifica o príncipe contemporâneo, com o corpo atlético em sintonia o universo de valores da princesa. Apesar de nunca ter posado para a Tpm, Chico Buarque episodicamente é interpelado pela revista, simplesmente “porque ele é Chico Buarque”.
A idéia de príncipe aqui se faz sobre um ídolo que sequer dera entrevista à Tpm, mas que por seu histórico na cultura, música e literatura do País é valorizado por quem é. Estas duas personas midiáticas seriam os objetos de desejo clássicos que Tpm proporciona à sua nova princesa. Princesa esta não mais à semelhança dos contos de Walt Disney, mas uma majestade moderníssima ao estilo de Carrie Bradshaw, de Sex & The city.
“Tpm: De onde vem a síndrome do príncipe encantado moderno?
Mirian Goldenberg: As brasileiras foram socializadas, antes, com novelas e romances, e, agora, com Sex and the city. Foram criadas para acreditar em contos de fadas. Por isso querem homens que não usem pochete e que saibam quem foi [Antonio] Gramsci” (Tpm, junho de 2005, ano 3, n.° 44, p. 27).
Pós-feminista, a mulher contemporânea brasileira não conta em suas performances com ares transgressores à lá Leila Diniz. E o que é preciso para as mulheres reavivarem suas transgressões, pequenas trips na vivência cotidiana, e abdicarem da nova “síndrome do príncipe encantado moderno”? Resposta arriscada, diria a antropóloga Mirian Golbenberg, para quem vivencia um contexto em que:
“[...] Tudo conspira para que as mulheres cresçam achando que seu valor está no homem que as acompanha, e que esse homem tem que ser superior, uma espécie de troféu. As mulheres têm que parar de querer ter ao lado Chicos Buarques para serem exibidos” (Tpm, junho de 2005, ano 3, n.° 44, p. 27).
Por quê? Porque se idealiza esta mulher contemporânea nos moldes de heroínas atualizadas como fortes. Mulheres que libidinosas vivem os prazeres do “sexo e da cidade”, que trabalhadoras adquirirem sapatos e cosméticos sem culpa, que independentes não esperam por desculpas ou rosas de amantes, que inteligentes estudam e conquistam o que quiserem.
Tais as mulheres, imaginara Lima, “que querem construir, aprender, se divertir, mudar o planeta, vivenciar opções bem diferentes das previstas”. Mulheres que, apesar disso tudo, ainda esperam por um amor. E é esta espera que as caracteriza ainda como princesas. Neste estudo, considera-se um equívoco suster o caráter ambíguo de Tpm.
Neste caso, considera-se que a Tpm não é ambígua, mas libera formatos variados para
a pluralidade de representações. As seções de moda, por exemplo, cumpririam com a proposta de coqueteria feminina. As seções bem-humoradas a entreteriam, enquanto as seções sérias a educariam. As fotografias masculinas materializam o corpo desejado, ao passo que os discursos escritos dariam asas a tais aspirações. Neste estudo, pontua-se a idéia de que as ambigüidades de Tpm refletem uma cultura da mulher em transição.
Tpm proporciona em suas matérias um diálogo com esta mulher fictícia, ponderando prós e contras das atuais condições reais da mulher na sociedade. A revista recusa os modelos femininos presentes em outras revistas, porque acredita que eles estão aquém do que a mulher contemporânea pode ser.
No discurso coloquial cotidiano, é sabido que tpm se refira aos dias “críticos” antecedentes à menstruação. Dizem que, nesta época, a mulher fica emotiva, temperamental e dominada pela montanha-russa de hormônios. Irritada, irracional, passional compõem o rol de expressões para designar as mulheres na tpm. Esta “braveza” da mulher nesses dias se traduz na Tpm maiúscula em mulher “forte”, disposta a lidar com o mundo armada de suas alternativas, de “todas as suas possibilidades”.
Para além da expressão “tensão pré-menstrual” meramente alusiva, Tpm é uma revista que com o passar do tempo se ajusta ao mercado editorial, conquista sua parcela do público e se consolida como uma viagem alternativa, uma verdadeira trip para a mulher.
Ps: Estes fragmentos constam nas Considerações Finais da Iniciação Científica ‘A representação do corpo masculino na mídia impressa: O caso de Trip para mulher‘, realizada por Juliana Sayuri Ogassawara, com auxílio do CNPq e orientada pelo antropólogo Cláudio Bertolli.

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