Mitologias coloridas
Era uma vez Barthes e suas Mitologias. Para uma disciplina da faculdade, fiz um paper sobre os mitos incorporados à cosmética no quesito ’sabonetes’. À época, recorri inclusive a estudos de química, reiterando o que me disse um professor do colegial: Se é ’sabonete’, o ph não é neutro, e se é, não limpa necas – nem tentarei a
profundar essa discussão, mesmo porque mwua conhecimentos de química estão bem longe de afiados. Mas nem precisava ir tão longe. Quantos e quantos filmes publicitários vemos atualmente com rótulos simplesmente inacreditáveis (incríveis strictu sensu, de literalmente não críveis, de ‘forçando a barra’) de shampoos para todos os tipos de cabelo?
Se você tem madeixas crespas (note bem, querida, é diferente de fios enrolados, ondulados, encaracolados, armados ou simplesmente frisados) deve escolher o shampoo X. Se você tem fios lisos, o shampoo Y é a pedida. Mas se você tem cabelos secos (e, preste atenção, raíz oleosa e pontas secas são outros quinhentos desembolsados) deve escolher o Z. Para tons castanhos, shampoos especiais para cabelos castanhos oras (e a regra vale para loiras e ruivas e suas infinitas tonalidades que, a bem da verdade, não fazem diferença nenhuma). E, se por um acaso do destino, você tiver cabelos normais (de verdade, fico besta ao ver estampado no rótulo dos shampoos a frase ‘para cabelos normais’) mas quiser cultivar as madeixas longas e ainda tiver colorido sua cabeleira (não importa a química: água oxigenada, tonalizante, tintura brava, tintura de marca; tampouco a cor: loiro acinzentado, castanho chocolate, preto azulado, rosa, azul, verde e todos os matizes da cartela), aí vão mais uns bons quinhentos. Deves escolher um shampoo “especial” para cada especificidade de suas madeixas mutantes, “rebeldes”, dizem as publicidades. Isso sem contar com a propagação ridícula de ideais raciais de beleza quanto aos cabelos: a chapinha japonesa é o auge dessa besteirada toda, enaltecendo os fios extremamente lisos e virgens, de preferência, desvalorizando imperiosamente o “estilo” que intitulam afro. Sem querer perder a clientela afro-descendente, no entanto, obviamente oferecem um creme hidratante formulado especialmente para as mulheres de cachos, caracóis e frizz. E claro, para cada consumidora, ávida por uma cabelereira escorrida, um tipo personalizado de produto: pontas “rebeldes” são diferentes de raízes “ruins” (!!!) ou “difíceis” (???), dizem as especialistas em mentiras irrisórias publicitárias.
Antes de tudo (querida, será um baque, mas você sobreviverá): cabelo é tecido morto! Assim que o fio desponta no couro cabeludo é célula morta. Não há misericórdia cosmética divina que fará revitalizar seus fios! Nada de compostos químicos de queratina, ph neutro, nutrientes e vitaminas de óleo de abacate, frutas cítricas, guaraná ou cacau poderão ressuscitar seus cabelos, dando-lhes vida, vigor, hidratação, movimento. Na quitanda das frutas, só uma banana para acreditar nisso, vale dizer. Passo mal em salões de beleza, com mulheres eufóricos alardeando as mais novas descobertas da indústria cosmética para o cabelo da espécie XYABLQ – note bem, amiga, é absolutamente diferente do seu, o ZMYGBTQ -, e com a resposta positiva inacreditável de milhares de mulheres consumidoras: “A-do-ro! (Por que raios se proferem frases em sílabas absolutamente ridículas?). É esse o shampoo (e o condicionador, olha lá, não se esqueça de adicionar à conta) que salvará minha vida”. Pode? Pode. E acontece a todo momento.
Caso queira matar sua curiosidade: compro shampoos de acordo com parâmetros absolutamente arbitrários e non sense. Sempre compro as espuminhas divertidas para meus cabelos mutantes norteada por dois fatores tão risíveis quanto os das milhares de mulheres que critico: cor e perfume. Cor do recipiente mesmo, contando layout e formato, e simplesmente não há teoria sobre isso – talvez ardilosos plubicitários poderiam ensaiar respostas à esta recepção do produto. Prefiro os potes transparentes, novamente, uma escolha arbitrária. É divertido especialmente porque nem leio os dizeres dos rótulos – tranquilos, no mínimo sei que não se pode beber shampoo – mas escolho pelo efeito colorido dessa mitologia. E também pelo perfume: porque, bem sabendo que a mitologia da profundidade – assim como criticada por Barthes – é, antes de tudo, uma mitologia, por que não me divertir com ela? Se em profundidade, o produto não faz porcaria nenhuma de diferença, prefiro deliberadamente escolher o shampoo de acordo com o perfume que dará instantaneamente aos meus cabelos – uma sensação de frescor imediata e imediatamente esquecida assim que saio do banho.
Em tempo: já fiz quase de tudo com meus cabelos. Talvez zombe e não leve a sério quem dispense uns bons punhados de reais com tratamentos capilares milagrosos porque tenha cabelos bons - a expressão não é minha, por favor, é de amigas que continuamente lamentam os cabelos ruins, aliás, o que é isso? O que determina essa tipologia? Há uma linha de partilha entre cabelos bons e ruins?!). Assim como só passei a me preocupar com o bem-estar dos meus queridos sapatos a partir do momento em que comecei a pagar por eles, talvez só me preocupe com a vida dos meus cabelos quando passarem a cair aos tufos ou ficarem secos e quebradiços como os da MCM (eu sei que você continua minha fiel leitora, miguxa).
2 Respostas
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Ju..fora aqueles shampoos com frutas, ervas e flores que tem efeito sobre os cabelos WXYT..heheheh….as vezes você entra na loja pra comprar um shampoo, coisa rápida, e fica horas porque há tantos que fica difícil escolher…e aí escolho pelo cheiro..hahaha…adorei esse post!
Minha querida, acho que nasci em um berço diferente. Minha mãe, ao que me conste, não titubeia na prateleira de higiene pessoal. Acho que a escolha se dá pelo preço.
No meu caso, a escolha se dá por três variantes: I Se é anti-caspa; II Se tem um cheiro forte (tenho comigo que quanto mais forte o cheiro do xampu, melhor sua ação contra a caspa) e; III O preço.
Abraços, Goiaba.